Não atropela.
Trabalhando como jornalista por mais de um ano no centro da cidade, comecei a me perder. Hoje observo lugares movimentados, buscando a velocidade, apreensões no cosmo urbano, a fórmula que explica o desencontro nos mesmos espaços. Dizem que há stress, desgaste de sentidos, superexposição do indivíduo aos impulsos, citava minha primeira professora de sociologia na faculdade. Uso comum, não lugar. Não acho. Discordo da artificialidade do urbano. São cruzamentos muito além das passagens.

Este é, por exemplo, um dos pontos mais transitados de Belo Horizonte, ida e volta para milhares, confluência. Fiz a foto de tarde, não era rush, algumas cabeças baixas nem revelam tanta pressa como era de se esperar em uma metrópole. Os carros não vão atropelar quem estiver no asfalto quando o sinal abrir, sei que se a carteira de alguém cair, a regra é devolvê-la. Um esbarrão terá pedidos de desculpa. O forasteiro que solicitar coordenadas tem sucesso. Não acho os centros mais tão entorpecentes e alienantes, cruéis, com severa distância entre as pessoas. Não é assustador, basta permanecer. Um coreano chamado Y-Fu-Tuan acha que os vínculos pessoais com o espaço mudam a recepção física que temos deles. Em todos os lugares movimentados há pessoas que se sentem a vontade. Relaxar, comer uma fruta ou até dormir, simples. Basta permanecer e se descobre que a inquietude dos nossos dias não está do lado de fora.

Este é, por exemplo, um dos pontos mais transitados de Belo Horizonte, ida e volta para milhares, confluência. Fiz a foto de tarde, não era rush, algumas cabeças baixas nem revelam tanta pressa como era de se esperar em uma metrópole. Os carros não vão atropelar quem estiver no asfalto quando o sinal abrir, sei que se a carteira de alguém cair, a regra é devolvê-la. Um esbarrão terá pedidos de desculpa. O forasteiro que solicitar coordenadas tem sucesso. Não acho os centros mais tão entorpecentes e alienantes, cruéis, com severa distância entre as pessoas. Não é assustador, basta permanecer. Um coreano chamado Y-Fu-Tuan acha que os vínculos pessoais com o espaço mudam a recepção física que temos deles. Em todos os lugares movimentados há pessoas que se sentem a vontade. Relaxar, comer uma fruta ou até dormir, simples. Basta permanecer e se descobre que a inquietude dos nossos dias não está do lado de fora.

João Leite é político de Minas Gerais. Já promulgou pelos direitos humanos, criou projetos de lei, foi secretário de governo no estado. Mas é o eterno ex-goleiro do Atlético Mineiro. No início de sua trajetória política, os jornais traziam: "João Leite, ex-goleiro do Atlético e hoje deputado estadual propôs que..." O tempo não passa no Brasil, João Leite foi quase candidato a vice-presidente nas últimas eleições, Gilberto Gil é de fato o Ministro da Cultura (ainda que continue cantor e compositor) e Bono Vox é ativista político que foi indicado para o prêmio nobel da paz em 2005. Quando o irlandês se encontrou com o presidente Lula, os jornais trouxeram "O líder da banda de rock U2, ao chegar no Brasil, atraiu a atenção dos fãs, distribuiu autógrafos e ainda se encontrou com o presidente Lula". É fácil. Que seja assim. Editores e repórteres que só conheçam o trabalho musical de Bono, sorvam a mesmice segura de cobrir só a fila de fãs no show do U2, o aceno do guitarrista The Edge da janela do hotel e os irlandeses no Carnaval da Bahia. Enquanto isso, Bono será condecorado pela Câmara de Buenos Aires , pelo governo do Chile em encontro com o presidente Ricardo Lagos, continua sendo cotado para um alto cargo nas Nações Unidas, dialoga com quase todos chefes de estado do planeta, Banco Mundial, G8 e afins. E eu penso, teremos uma entrevista com o homem de óculos rosas sobre política, e mais importante, em algum caderno de política de algum jornal? Aqui no Brasil não. Fazemos diferente, aqui João Leite fica goleiro até quando for possível, se ele houvesse desistido da política, seria mais fácil. Se algum parente do falecido Ronald Reagan estiver no país, é possível que o repórter pergunte sobre a carreira do ator, e não do ex-presidente. Política é coisa difícil, é para os repórteres que entendem, para quem lê a primeira parte dos matutinos. Arte e Cultura dão menos trabalho. O 



