Artênius Daniel

Sunday, April 09, 2006

Não atropela.

Trabalhando como jornalista por mais de um ano no centro da cidade, comecei a me perder. Hoje observo lugares movimentados, buscando a velocidade, apreensões no cosmo urbano, a fórmula que explica o desencontro nos mesmos espaços. Dizem que há stress, desgaste de sentidos, superexposição do indivíduo aos impulsos, citava minha primeira professora de sociologia na faculdade. Uso comum, não lugar. Não acho. Discordo da artificialidade do urbano. São cruzamentos muito além das passagens.



Este é, por exemplo, um dos pontos mais transitados de Belo Horizonte, ida e volta para milhares, confluência. Fiz a foto de tarde, não era rush, algumas cabeças baixas nem revelam tanta pressa como era de se esperar em uma metrópole. Os carros não vão atropelar quem estiver no asfalto quando o sinal abrir, sei que se a carteira de alguém cair, a regra é devolvê-la. Um esbarrão terá pedidos de desculpa. O forasteiro que solicitar coordenadas tem sucesso. Não acho os centros mais tão entorpecentes e alienantes, cruéis, com severa distância entre as pessoas. Não é assustador, basta permanecer. Um coreano chamado Y-Fu-Tuan acha que os vínculos pessoais com o espaço mudam a recepção física que temos deles. Em todos os lugares movimentados há pessoas que se sentem a vontade. Relaxar, comer uma fruta ou até dormir, simples. Basta permanecer e se descobre que a inquietude dos nossos dias não está do lado de fora.

Wednesday, March 15, 2006

FRANGO FRANGARE FRACTUM



Estou estudando Latim, a origem do que eu falo e escrevo. Pensei que era dificil, descobri que sim. Tentar achar o antes, a fonte para as coisas é a tarefa mais difícl em qualquer ciência, linguagem, arte, é como aprender a não andar de bicicleta. FRANGO é o verbo quebrar em primeira pessoa - vem de fractum, fratura - e os alemães, americanos, ingleses que estudam latim, aprendem facilmente. Quem fala português nao se liberta da ave, frangos não voam.
O que já representa fragmenta. Uma letra T nunca vai ser um enconTro de duas reTas perpendiculares, só um desenho, ninguém se lembra disso como se ainda não fosse alfabetizado. A ponte que traz da fonte até o aprendizado se rompe depois que todo mundo passou. Aprender é abandonar, com certeza.
Depois que a assimilação foi feita, o processo nunca será revertido. Quem nasce no Brasil não esquece Português ao aprender Latim. Não existe a volta à fonte pura. Mas então o que é dos que aprendem que Muçulmanos são terroristas, homosexualismo é doença, mulheres são menos capazes, frangos não voam? No momento, mais importante do que se preocupar em achar a fonte, entender os fundamentos da igualdade entre pessoas, explicar o amor, descobrir as respostas é reconhecer que a ponte foi quebrada. Quem sabe sentar na beira da fratura. Pensar se no outro lado homens também voam.

Monday, February 20, 2006

Bono não usa terno e gravata

João Leite é político de Minas Gerais. Já promulgou pelos direitos humanos, criou projetos de lei, foi secretário de governo no estado. Mas é o eterno ex-goleiro do Atlético Mineiro. No início de sua trajetória política, os jornais traziam: "João Leite, ex-goleiro do Atlético e hoje deputado estadual propôs que..." O tempo não passa no Brasil, João Leite foi quase candidato a vice-presidente nas últimas eleições, Gilberto Gil é de fato o Ministro da Cultura (ainda que continue cantor e compositor) e Bono Vox é ativista político que foi indicado para o prêmio nobel da paz em 2005. Quando o irlandês se encontrou com o presidente Lula, os jornais trouxeram "O líder da banda de rock U2, ao chegar no Brasil, atraiu a atenção dos fãs, distribuiu autógrafos e ainda se encontrou com o presidente Lula". É fácil. Que seja assim. Editores e repórteres que só conheçam o trabalho musical de Bono, sorvam a mesmice segura de cobrir só a fila de fãs no show do U2, o aceno do guitarrista The Edge da janela do hotel e os irlandeses no Carnaval da Bahia. Enquanto isso, Bono será condecorado pela Câmara de Buenos Aires , pelo governo do Chile em encontro com o presidente Ricardo Lagos, continua sendo cotado para um alto cargo nas Nações Unidas, dialoga com quase todos chefes de estado do planeta, Banco Mundial, G8 e afins. E eu penso, teremos uma entrevista com o homem de óculos rosas sobre política, e mais importante, em algum caderno de política de algum jornal? Aqui no Brasil não. Fazemos diferente, aqui João Leite fica goleiro até quando for possível, se ele houvesse desistido da política, seria mais fácil. Se algum parente do falecido Ronald Reagan estiver no país, é possível que o repórter pergunte sobre a carreira do ator, e não do ex-presidente. Política é coisa difícil, é para os repórteres que entendem, para quem lê a primeira parte dos matutinos. Arte e Cultura dão menos trabalho. O Carnaval Revolução, em Belo Horizonte reunirá centenas de pessoas de todo o Brasil para discutir política. Mas a notícia será: "Longe do Samba e com bandas de rock jovens criam alternativa para a folia." Delcídio Amaral estava no show dos Rolling Stones, mas os repórteres que cobrem a CPI não foram atrás dele. As imagens de arquivo com Bono Vox na África, Davos, conversando com o secretário Geral da Onu Kofi Anam não foram utilizadas pelos telejornais nas matérias do encontro Bono/Lula. "Show do U2 leva fãs ao delírio em São Paulo", estará certamente nas notas da semana.

Rock, Futebol, Televisão, Cinema = Editoria de Cultura ou Esportes.

Terno e gravata = Editoria de Política.

Nossa fórmula de produção jornalística é o retrato do Brasil.

Wednesday, February 08, 2006

WEOIUHVDBHWERFSDHFLKNERUTFHJK


Fiz essa foto. São teclas onde meu pai escreve. Quando erra, corretivo, pra começar de novo, nova folha, a luz nem sempre é boa, alguma tecla emperra, ao barulho acostuma-se o ouvido, dois ou três toques com força e está feito negrito, fonte única, caixa dupla, horas várias. Escrever a máquina faz lembrar que as palavras não são fáceis, como proferem mentirosamente nossos professores da segunda série. O Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais me convida por email para um curso especializado de Português, para escrever melhor, é dito. Queria, na verdade, uma oficina de tipografia, aprender a me sujar no óleo das máquinas, trocar de papel no fim da página, ficar na dúvida se o sublinhado culminará torto ou vitoriosamente bom. Érico Veríssimo dizia que escrever é um martírio. Será que também achamos? Tentei escrever este texto sem dar nenhum delete ou backspace, sem corrigir nenhuma palavra saída errada, brincando de não ter e não poder. Claro que não consegui, acho que nunca conseguirei.
AHHHHHHHHHHHHpadjsfhnrfhekdjnfloiedasdljnsadkwehqodnoijdoiawjdowsxoimipew
dawkferfrijhneirothghngbjbgntboytghrliajfio5rhtiogjronuythnuirlthgluvuithgljkhnliurhrtli

Tuesday, January 31, 2006

Liberdade, libertinagem e o baixista Champignon


Não assisti a "Os Sonhadores", filme bonito dizem. Ilustrada no calor das manifestações parisienses de quase 40 anos atrás, a cena que mais se descreve nas resenhas é a de um irmão pedindo que o amigo faça sexo com a irmã no chão da cozinha, enquanto o primeiro frita ovos. Aproveitando o círculo de significação Revolução - Comida - Revolução, muito penso na nova banda do Champignon, antigo baixista do Charlie Brown Junior. O nome é"Revolucionnarios" (não sei se o "n"dobrado faz parte de um conceito de revolta fonética), o clip deles passa na Music Television Brasil. Em cena, um bando de jovens, fãs da banda, se junta em protesto por São Paulo e invade um conclave de políticos, regado a malas de dinheiro e pizza. Liderada por Champignon, a juventude revolucionnária ultraja os usurpadores da nação, rasga-lhes a roupa, retoma o dinheiro público e afunda suas caras na pizza. Justiça feita.
O rock é Dionisíaco, concluímos outro dia bebendo cerveja. Libertino. Led Zeppellin fazia orgia com as fãs e Kurt Cobain tentou estuprar a câmera de TV durante um show no Brasil.No entanto, salvo aqueles que foram ao show do Iggy Pop no Claro que É Rock, a maioria já sente que juventude e protesto não combinam mais. O máximo da revolução é afundar a cara de um político na pizza. Muito pouco. De resto, fica descobrir se a liberdade abandona a libertinagem no século XXI. Thiago Pereira me disse ter certeza que sim, nossa geração é muito mais conservadora que a de nossos pais. Dionísio adoece. Talvez 68 nunca tivesse mesmo acontecido sem a energia do sexo explícito no frigir dos ovos, talvez Bertolucci tenha mesmo achado o fio da meada No frigir dos nossos dias, castração é a ordem, ter 18 anos é dirigir, assistir aos clips da MTV e entrar para uma boa faculdade. Digo que é esse o mais patético dos cenários político-juvenis onde imergimos e Champignon talvez seja vereador de Santos um dia. Não quero crescer.

Thursday, January 26, 2006

Recordações de Solferino

Solferino parece um lugar legal, especialmente de tarde. Deve ter hoje as mesmas pinturas de parede da vila em que minha avó nasceu. Senhoras italianas que colhem frutas e panfletos de academias de ginástica. Há quase dois séculos um morador de Solferino levantou uma bandeirinha branca, rubro cruzada, no meio da guerra, pedindo para cuidar dos soldados de ambos lados. Insano ele. Deu certo. Hoje, penso que a sanidade corrói Solferino aos poucos. Ouso dizer que não há absurdos. O lógico e o aceitável acorrentam as pequenas vidas na Itália ou Minas Gerais. Sanidade demais. Já quase morri apertando as pontas dos dedos às unhas, ao pensar em como ser mais doido do que aquele lá da Itália. Ainda consigo um dia, com certeza. Até lá, eu me junto à Cruz Vermelha Brasileira, como assessor de comunicação voluntário.

Thursday, January 19, 2006

Primeiro Dia

Curioso ou irônico começar um blog produtivo em meu primeiro dia de desemprego. Uso os mesmos adjetivos no afã de entender minha situação, jornalista, editor, repórter e fotógrafo de um jornal de empregos, onde cobria, entre outras coisas, o desemprego no Brasil e suas consequências. Sou eu, agora, engrossando a lista dos que eram minhas fontes. Como o automata amputado que leva a mão à perna, pois ainda coça, vejo que eu daria uma boa matéria, quero me entrevistar. Fui substituído por um simulacro de empresa de comunicação, com estagiários, que fará todo meu trabalho para esganar as páginas do jornal com publicidade e política. Foi me dito por quem pagava meu salário que será mais fácil assim, jornal não é pra esquentar muito a cabeça mesmo, deixa alguém fazer tudo.
Vejo. Realmente é incômodo para o jornalismo ser notícia. Foi castrador me perder triste nas ruas da movimentada Belo Horizonte sem a segurança do trabalho, sem direção no sentimento de tristeza e desânimo, procurando entender a lógica entre dignidade e ocupação nesse mundo. Querendo outro. Eu sou notícia, mas não posso mais fazer notícia, eu não posso me fazer.

"Seremos homens melhores onde estivermos
O mundo é que está errado
Bem Vindo Ao Clube
Celebrar o Fim "
www.deadfish.com.br
Quem estuda pronomes relativos precisa de um blog.